
A minha história
Partilho aqui um pouco da minha história. Não é longa nem rocambolesca. Contudo, se não tivesse tido a capacidade de pedir ajuda, provavelmente não estaria a escrever isto neste momento. Sinto que sou um daqueles casos que prova que as coisas não acontecem só aos outros. Que ninguém está livre de se ver numa situação de dependência, como forma de escape para tudo o que não queremos sentir. Rapidamente essa dependência se torna o nosso centro. Deixamos até de saber porque é que começamos, mas parece que não conhecemos outra forma de estar na vida.
Nasci num ambiente familiar harmonioso e tranquilo. Tive o privilégio de poder estudar e escolher o que queria fazer da minha vida.
Vazio por preencher
A par disso, havia sempre um vazio por preencher, uma tristeza e sofrimento e por vezes fui-me abaixo tendo tratado as depressões que fui tendo sempre de formas diferentes. A primeira, nem sabia o que tinha, nem como lidar, mas, bem ou mal, acabei por achar que a tinha resolvido “naturalmente”. No entanto, a cada etapa má que tinha, parecia que se tornava cada vez mais difícil superar.


Tinha quase 30 anos quando tive mais uma fase negra, associada a uma desilusão amorosa. Decidi alimentar-me da raiva, tristeza, desilusão e sofrimento que isso me causou. Nesse mesmo momento, conheci uma pessoa, por quem me apaixonei de forma tóxica. Tínhamos uma relação não assumida de namoro que se tornou uma dependência para ambos e muito destrutiva.
Nesse episódio da minha vida, depois de alguns pensamentos e comportamentos de desejar simplesmente morrer, acabei por assumir que precisava de ser devidamente medicada para equilibrar os meus níveis emocionais. Considerei que foi um passo importante para mim e que me consegui levantar, ao fim de um ano mais ou menos. Apesar disso, como não gostei da forma como o psiquiatra lidava comigo, decidi fazer o desmame dos medicamentos sozinha e seguir a minha vida.
Cocaína
Foi pouco depois disso que conheci a cocaína. Já estava a colecionar ingredientes para a auto-destruição total: tendência depressiva, relações tóxicas e este terceiro era a cereja no topo do bolo. Mas, obviamente, não conheci esta droga com essa perspetiva. Conheci-a aos poucos. Não gostei da primeira experiência. Entretanto, noutro evento festivo, consumi e senti-me super poderosa, ao ver que uma noite sem dormir era completamente superada com isso.

O início dos consumos
Comecei a consumir com alguns amigos em festas e rapidamente entrei nesse meio. Na verdade, já estava nesse meio há bastante tempo, embora não fizesse parte dessas “festas”. A partir dessa altura, as coisas foram escalando a um ritmo exponencial. Depois de ter contactos que me vendessem diretamente a cocaína, comecei a ser eu a comprar e sempre que saía à noite consumia. Primeiro, eram só uns cheirinhos, para controlar o álcool. Mas depressa começou a ser até acabar a dose. Eventualmente precisava até de comprar mais a meio da noite. Já começava a comprar às duas de cada vez. Estava estabelecida a minha rotinazinha.
Pandemia
Entretanto, veio a pandemia. Já há um ou dois anos que tinha um consumo mais ou menos regular. A par disso, estava noutra relação, também tóxica e destrutiva. Com a pandemia, comecei a usar a cocaína fora das festas.

Espiral
Foi num instante que me vi num ciclo infindável de consumos, afastada de todos, paranóica, a contar tostões e a abdicar de tudo para mais um cheiro. Comecei a tentar superar e sair desta espiral sem ajuda. Tentei várias estratégias (mais detalhes neste artigo). Até que tive um momento de coragem e falei com uma amiga. Ao fim de alguns avanços e recuos, decidi internar-me numa comunidade terapêutica.

Tratamento
Fiz um programa onde aprendi mais sobre mim do que alguma outra coisa. Reencontrei o meu equilíbrio (ou talvez encontrei verdadeiramente), limpei a folha! As ferramentas que tive oportunidade de ganhar seriam úteis para qualquer pessoa, com ou sem uma adição ou doença mental.
Já passou mais de um ano que saí da clínica e hoje estou bem, limpa de consumos, com uma rede de suporte reforçada, estabilidade e equilíbrio emocional e saúde. Acima de tudo, feliz e realizada! Algo que achei durante muito tempo que não seria possível acontecer.

Propósito
O propósito deste site bem precisamente nesta linha de pensamento. Agora, que estou bem, que superei uma data de lutas, sinto que tenho como missão passar o meu testemunho e tentar chegar a quem possa estar ainda no meio desta luta, que sei que é difícil e que pode ser longa e incerta.
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