Um caso real de relações tóxicas

Relações tóxicas e dependência emocional: o meu testemunho

Há muito a dizer relações tóxicas e dependência emocional, falando na primeira pessoa. É um processo lento e auto destrutivo que nos podem levar às maiores loucuras. Infelizmente, muitas vezes só nos apercebemos que estamos envolvidos numa quando já passamos de todos os limites imaginários e já batemos no fundo várias vezes.

Quem é que começou? Como começou? Porque é que começou?

A tendência do ser humano é geralmente perceber quem é o culpado ou responsável pelo mal causado. O mesmo acontece no que diz respeito a uma relação. Há quase que uma necessidade de apontar dedos, como se isso nos fosse apaziguar de alguma forma. No entanto, quando estamos numa relação tóxica, também nós próprios nos podemos tornar tóxicos. Foi o que me aconteceu. Não posso responsabilizar totalmente a outra pessoa, porque a eu também estava a ser negativa para ele.

Quando as coisas já estão avançadas, já tudo está de tal maneira embrulhado que, no momento não é importante analisar cada comportamento. Importante é saber identificar que toda a situação nos está a causar mal e que temos de arranjar forma de cortar com os ciclos destrutivos.

No entanto, é também importante depois resolvermos estes episódios em vez de os enterrarmos. Caso contrário, mais cedo ou mais tarde, tudo volta.

É precisamente como uma droga: não só tudo volta, mas retoma o ponto em que estava e escala em termos de intensidade e negatividade.

A minha história

Vou falar do que eu passei. Sei que a psicologia já tem uma data destes comportamentos e situações estudadas, mas aqui o interesse não é falar da teoria, mas de uma realidade que aconteceu comigo e com a qual alguém se pode identificar.

O início

Um dos relacionamentos que tive, durante cerca de três anos, começou muito “inocentemente”, fruto de um momento de tristeza, desilusão amorosa e raiva que eu estava a viver e com a qual a outra pessoa se identificou. Também ele estava numa fase triste, desiludido com a vida, desmotivado. Começamos então uma amizade de partilha de dores mas também diferentes formas de fugir a todo o sofrimento que a situação de cada um causava. De alguma maneira, encontrava nele uma espécie de conforto, de alívio. Era alguém que sentia que me entendia e que também estava de coração magoado e fechado.

Instalou-se uma rotina conjunta – o início da dependência

Algum tempo depois, as nossas dores foram passando a ser tema secundário e começamos a ter uma rotina juntos. No entanto, a mágoa que tínhamos continuava por resolver, resultando em picos de euforia com momentos depressivos. Em ambas as situações, aceitávamo-nos e tentávamos apoiar da forma que podíamos e sabíamos.

Rotina de um casal numa relação tóxica
Image by StockSnap from Pixabay

Quando estávamos juntos, era até o tempo esgotar e mais um pouco. Sair da beira dele para mim era sinónimo de me sentir só, ansiosa e desamparada. Sentia-me desesperada quando ele me dizia que estava triste e desanimado e tentava tudo para que ele tivesse um dia melhor. Muitas vezes sem sucesso, causando-me frustração e sentindo que não tinha o que era preciso para o ajudar. Lembro-me bem da sensação de impotência e frustração por não conseguir animá-lo.

Outros dias, ele desafiava-me para sairmos para umas escapadinhas. Durante esses dias, esquecíamos o resto do mundo e éramos só nós. Íamos pela estrada, a usufruir do caminho, da natureza, tirávamos fotografias, conhecíamos cantinhos recônditos em Portugal e boa comida.

Quando regressávamos, algo nos fazia sempre relembrar que o mundo ainda estava na mesma.

A depressão

Nessa fase, por um lado, sentia que estava apaixonada por ele. Por outro, tudo o resto não me fazia qualquer sentido e levantar-me da cama era às vezes a tarefa mais difícil do meu dia. O trabalho para mim era um fardo enorme, fonte de desmotivação e frustração. As faltas iam-se acumulando e os atrasos eram constantes e já de duas horas. Não havia rotina de sono, muito menos de alimentação saudável e com horários.

A depressão numa relação tóxica
Image by Pexels from Pixabay

Ele acompanhava-me nesta vida sem regras. Ou fui eu que o acompanhei? O que é certo é que criámos este modo de vida em que, ora fugíamos da realidade e vivíamos um ou dois dias fora do que era a nossa vida, ora regressávamos e voltávamos a sentir-nos tristes e sem vontade de viver. Se, por um lado, fazia de tudo para o animar quando se sentia triste, por outro, quando eu me sentia triste, dava a impressão que ele estava sempre pior do que eu, fazendo com que eu fosse reagindo, mas sempre em modo “apagar fogos” cíclico.

Discussões e conexões

Estando a dependência instalada, começaram a surgir algumas discussões. O meu estado emocional era de tal forma instável que não me lembro do motivo da maior parte dessas brigas. Mas lembro-me do estado alterado em que ficava e as loucuras que pensava fazer. Tudo era intenso: a parte boa e a parte má. Ao ponto de, nenhum dos dois ser saudável para o outro. Durante a discussão, conseguia odiá-lo de morte, mas se ele se ía embora, implorava que não fosse sentindo desespero de ficar só e de ele me deixar.

Loucuras
Loucuras que cometemos numa relação tóxica
Image by Yogendra Singh from Pixabay

Considero que sou uma pessoa calma e pacífica, ainda que ansiosa. Mas, nesta fase, dei por mim em várias situações a berrar na rua, em casa, a bater violentamente no volante do carro, a desligar a chamada e atirar o telemóvel, a dizer crueldades, a querer fazer-me mal fisicamente para me sentir anestesiada emocionalmente. Se houve altura em que me senti mal comigo própria e quis fazer-me mal foi esta. Estava a desistir de viver, achava-me um lixo, estava revoltada e quis largar tudo.

Tentar sair e voltar: o ciclo da dependência emocional

Mas tudo isto se passou em ciclos. Depois de um episódio de raiva e ódio, vinha um momento reconfortante e que me fazia sentir mais conectada ainda com esta pessoa. Sentia que tudo que era negro se apagava e que não valia a pena pensar mais nisso.

ciclos da dependência emocional
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Pouco tempo depois, tudo voltava, alguma coisa provocava mais uma discussão e voltávamos a discutir, a dizer e desdizer as coisas e usávamos o que podíamos para magoar o outro. Por vezes ficávamos zangados e íamos cada um para sua casa. No dia seguinte a tristeza era de tal forma insuportável que acabávamos por ir ao encontro do outro, muitas vezes sem falar mais do motivo da discussão.

A tendência da mente humana é para esquecer episódios mais traumáticos que passámos, para conseguirmos prosseguir com as nossas vidas. Por isso, muitos destes pormenores dos episódios e ciclos infindáveis já estavam esquecidos, mas o que está ainda fresco na memória é que esta foi a fase mais negra que passei.

paraísotempestade
Image by Harry Strauss from Pixabay (esquerda) Image by sethink from Pixabay (direita)

Estes ciclos iam acontecendo em modo crescente. Cada fase de discussão e raiva ía sendo cada vez mais intenso. De tal forma que, inicialmente, não identificava nenhuma das fases. Quando os ciclos já estavam entranhados nas nossas rotinas e nos estavam a corroer a sanidade mental e física, já era tão envolvente que não sabia como quebrar esta montanha russa.

Deixá-lo era a última coisa que queria, por vários motivos. A começar, por estar apaixonada por ele, embora da forma mais negativa e tóxica possível. Isso criou-me uma sensação de dependência dele que também me impossibilitava de pensar em deixar de estar com ele. Assim como, a sua dependência para comigo, me fazia sentir culpada se pensasse em abandoná-lo, e era uma coisa que ele me transmitia sempre que sentia que eu poderia estar a distanciar-me. Era um jogo elástico de vai e vem doentio, mas na altura não sabia como viver sem que ele estivesse na minha vida.

Sair de uma relação tóxica?

Para quem está de fora, sair de uma relação tóxica é aparentemente simples: “basta” cortar esta rotina, quebrar a relação e seguir em frente. No entanto, não se pode dizer que é assim tão simples. Leva o seu tempo, sobretudo para a própria pessoa tomar consciência que precisa de tomar uma decisão e ser firme. Geralmente acabamos sempre a tentar quebrar e pouco tempo depois a voltar. Também nesta fase entram os ciclos.

Sobretudo, porque é difícil conceber a ideia de viver sem o outro, dado que existe de facto aqui uma dependência emocional muito grande. Sentimos que estamos a virar costas ao que não deveríamos, ao que nos é conhecido. Achamos que, no nosso caso, as coisas um dia vão melhorar, porque existe de facto uma ligação muito forte.

Com já referi, batemos no fundo várias vezes e passamos dos limites e mais um pouco. Este processo pode levar muito tempo. Até porque pode haver chantagem emocional que nos leva a sentir-nos culpados e egoístas por “abandonar” a pessoa.

Fechar a porta

Neste meu episódio, foi precisamente o que senti e o que me levou a demorar um bom tempo para realmente dizer esse “basta”. E, quando disse, senti-me a pior pessoa do mundo.

Se já tinha auto estima lá em baixo, nesse momento bati no fundo. Teria-me ajudado alguma coisa ter partilhado todas estas coisas com alguém. Mas não partilhei. Não o suficiente. Também por uma razão muito simples que também faz parte desta toxicidade: não queria acreditar que a relação não ía funcionar e não queria passar uma ideia negativa dele aos outros. Sabia, no fundo, o que as pessoas me diriam, se falasse, mas achava que elas não entendiam o que eu tinha com ele.

Era um mundo demasiado meu e dele para que outros conseguissem entender.

fechar a porta e sair de uma relação tóxica
Image by Karen Nadine from Pixabay

Ao fim de muitos ciclos, muitos episódios, muita dor e raiva, tomei a decisão de que precisava de parar com isto. Vi que, se continuasse, íamos acabar os dois num fosso tão fundo que só achava que se resolvia terminando com a minha vida. Cheguei a querer e a pensar nisso em vários momentos. Agarrei-me à ideia de que, da forma como estávamos, só nos estávamos a fazer mal, independentemente do que ele me pudesse dizer. Sabia que ía ficar a julgar-me e dizer que o estava a abandonar na pior altura, como já tinha acontecido antes. Mas tinha de me agarrar à ideia de que tanto eu como ele ficaríamos melhor depois de apaziguar desta separação.

Foi difícil, mas, quando realmente levei a sério a minha decisão, comecei a ver que realmente as coisas começavam a acertar-se. Demorou um tempo e não fui capaz de ser totalmente firme na minha decisão, mas fui vendo que, de facto, tanto eu como ele precisávamos de ajuda mas externa e distantes.

Libertação após a dependência emocional
Image by PublicDomainPictures from Pixabay

Aos poucos, fui-me reaproximando do meu círculo de amigos e família, com os quais tinha já criado uma distância grande. E fui-me apercebendo que estava agarrada à ideia de que só conseguia viver perto dele e que mais ninguém me via da mesma forma que ele. Essa ideia estava errada mas impediu-me de reagir a tempo de evitar muito sofrimento.

Como evitar uma relação tóxica?

Não há receitas mágicas, mas há sempre formas de nos tentarmos proteger de uma relação tóxica. Infelizmente, também falo na primeira pessoa quando digo que não basta viver uma relação tóxica para conseguirmos evitar uma outra. Mas termos consciência de algumas coisas pode sempre ajudar-nos a lidar com as situações de forma a não acabarmos noutra situação dessas.

Aqui estão algumas ideias simples, mas que eventualmente poderão fazer a diferença para que uma relação não evolua negativamente:

  • Conhecermo-nos, termos consciência de quem somos, do que nos faz bem, das nossas necessidades e perceber os nossos comportamentos.

  • Fazermo-nos respeitar e aprender a dizer “não” quando é preciso. Não ter medo da rejeição, do julgamento. Saber que há momentos para ajudar e momentos para pedir ajuda. E, se estamos a precisar de ajuda, não temos a mesma disponibilidade para ajudar.

  • Ter vários focos na nossa vida, que nos alimentem o nosso bem-estar. Seja na diversidade do círculo de amigos, nas atividades em que nos envolvemos, nas nossas rotinas. Termos várias fontes de motivação e interesse ajuda-nos a sermos mais equilibrados emocionalmente.

  • Exteriorizar o que sentimos. Nem sempre é fácil, e por vezes temos aquela voz a dizer-nos que, se falarmos, vamo-nos arrepender, por alguma razão. Mas há várias formas de exteriorizar o que sentimos, seja falando com um amigo ou um desconhecido.

Como disse, são coisas simples, mas que, trabalhadas progressivamente e com dedicação, podem-nos fazer sentir saudáveis.

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Comentários

Anónimo
2025-01-03 at 14:15

As relações tóxicas podem assumir muitas formas e nunca vêm com uma etiqueta a anunciar que o são. Esta tua história ajuda a perceber como uma relação que parece muito “certa” se pode vir a revelar ser destrutiva e prejudicial.
Obrigado pela partilha 🙂



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