
Sinais e sintomas de dependência da cocaína
Quando os meus consumos de cocaína começaram a descontrolar-se, não estava muito focada ou importada com isso. O meu foco era mais encontrar alguma coisa que me trouxesse bem estar, e vivi a ilusão de que a cocaína me pudesse ter esse papel.
À medida que o tempo foi passando (e não foi preciso muito), começaram a aparecer sinais de que alguma coisa não estava bem. Para quem me rodeava, como desconheciam que eu consumia cocaína, esses sinais passaram completamente despercebidos. Mas estavam lá!

Escrevo este artigo, não só com o intuito de eventualmente alguém se rever e perceber que pode mudar a sua vida, mas também para quem está perto de uma situação destas. Ler estes sinais pode ser a diferença para agir a tempo.
Alguns destes sinais e sintomas serão mais direcionados para o consumo de cocaína, uma vez que foi o meu caso. No entanto, muitos acabam por ser constantes, seja a substância qual ela for.
Mudanças de humor
Um dos sinais de que já estamos num estado de desequilíbrio e descontrolo é o estado de humor. Na altura em que andava a consumir todos os dias tinha comportamentos bipolares.
Ora estava lá em cima, cheia de moral e vida para dar e vender, ora estava lá em baixo, sem ânimo para nada e numa profunda apatia.
Claro que é importante também lembrar que isto se relacionava também com a depressão com que estava. No entanto, não era a depressão que me fazia estar lá em cima. Isso era a cocaína que eu usava como antidepressivo. Achava que era altamente eficaz. Mas era uma ilusão. O boost que sentia era apenas no momento. O efeito da droga era cada vez mais curto e menos intenso e a ressaca posterior cada vez mais funda.


Idas constantes à casa de banho
Nos eventos com amigos ou família era o sinal mais flagrante: as idas à casa de banho. Tudo era uma desculpa para uma ida, para consumir mais. E, a cada vez que ía, voltava sempre a pensar na seguinte oportunidade para voltar sem que ninguém percebesse. Como já estava numa fase em que sentia pavor do convívio social, sentir que o efeito da cocaína poderia passar, para mim era um pânico.

Quem diz “idas à casa de banho”, também podiam ser escapadas rápidas com desculpas inventadas em cima da hora para conseguir consumir. “Um amigo está a precisar de mim”, “o meu primo vai passar aí para me dar alguma coisa”, “Esqueci-me do telemóvel, tenho de ir a casa”.
Problemas financeiros
Quando as coisas já estão avançadas, esta torna-se a maior das preocupações. No meu caso, comecei a cortar com todos os custos que podia, incluindo supermercado e bens essenciais do dia a dia. Cheguei a fazer um plano financeiro com todas as contas, que incluía os gastos com a cocaína. Gastava sempre mais do que estava no plano. Lá tinha de reajustar as contas, para que o dinheiro esticasse. Comecei a gastar dinheiro de poupanças rapidamente e as contas começaram a ser cada vez mais apertadas.

Faltar às responsabilidades
No meu caso, a dada altura, as desculpas começaram a surgir não só para consumir, mas também como consequência do abuso de consumo. Fosse por falta de horas de sono, por consumo a mais ou por vontade de consumir. No fundo, sabia que estava a perder produtividade no trabalho e a ser desleixada com as minhas coisas. As razões que dava a mim própria para não me sentir culpada disso eram cada vez mais descabidas, mas, na minha cabeça, eram válidas para disfarçar que estava tudo bem.

Falta de concentração
Uma das grandes consequências dos consumos da cocaína foi a falta de concentração em tudo. Estava a perder visivelmente a capacidade de raciocínio e de ter um diálogo coerente. Eram coisas que me preocupavam bastante. Inicialmente, a cocaína fazia-me achar que tinha o pensamento mais claro, mais rápido, isso seduziu-me tremendamente. Mas a rapidez com que este efeito se desvanece é assustadora.

Vestígios de cocaína
À medida que os consumos se descontrolavam, os vestígios da própria cocaína começavam a ser visíveis. Na roupa, no cabelo, no telemóvel e no nariz. Mais uma vez, como a maioria das pessoas à minha volta não sonhavam que eu andava nesta vida, era mais fácil esconder, mas foi sem dúvida um sinal de que estava a desleixar-me em todos os aspetos.
Paranóia
Este sintoma vem, naturalmente, com o efeito da cocaína. Aliado à minha forma de ser, que já vem com um overthinking suficiente, a cocaína fez-me entrar em filmes surreais e irreais de que não me orgulho. Muitas vezes era durante a noite, quando estava já com muitos consumos. Todas as pequenas preocupações que tinha transformavam-se em coisas gigantes que me assombravam.
Sentia-me perseguida constantemente e estava sempre a ver “Que barulho foi aquele?”, “O que é aquilo que se mexeu?”.
Também não conseguia estar muito tempo num lugar. Sentia que, se o fizesse, estaria a “desmascarar-me”.

Tremor nas mãos
Rapidamente comecei a ter sintomas reais e físicos que me preocupavam, uns mais do que outros. O tremer das mãos era mais a preocupação de ser descoberta, mas também a tomada de consciência de que as coisas já não estavam controladas.

Magreza
Esta consequência foi até a um ponto de que também não me orgulho. No limite desta fase, lembro-me de um momento em que estava já a pedir ajuda e me olhei ao espelho numa casa de banho de um amigo e chorei. Estava seca, murcha, pálida, doente. Conseguia contar as costelas até na zona do peito. Foi como se me tivesse visto pela primeira vez ao fim de muito tempo.
Esta magreza foi criada pelo consumo da cocaína. Inicialmente, achei um ótimo remédio para uma dieta sem esforço! Cheguei a consumir só porque tinha fome e não queria comer.
Quando as coisas tomaram proporções que já não eram aceitáveis, comecei a usar várias camadas de roupa, para que não se visse que estava tão magra, pois achava que ía ser um alerta para os outros.
Sempre me vi com uns quilos a mais, mas a verdade é que isso nunca me fez chorar de tristeza e vergonha como nesta fase.

Falta de cuidado pessoal
Uma vez que a prioridade neste tipo de vida começa a ser só à volta da cocaína, há um descuidado progressivo com a nossa imagem e mesmo a nossa higiene pessoal. Em toda a minha vida fui pouco vaidosa, mas nesta fase acabou por ser um extremo notório. Na roupa que usava, sem querer saber muito, apenas tinha a preocupação de que não se notassem as repercussões dos consumos excessivos. O cabelo estragado e áspero também é uma consequência da cocaína.
Apesar de nunca ter sido demasiado preocupada com a minha imagem, esta postura naturalmente mexeu com o meu amor próprio. Ao não me interessar nem gostar do que via no espelho, gostava menos de mim. Era um ciclo.

Pingo no nariz, assoar / fungar constante
Um sinal quase sempre presente em quem consome cocaína. Não só estava sempre com o pingo, como já tinha feridas internas e chegou a afetar os ouvidos também. Estas pequenas coisas, aliadas à paranóia característica de quem consome, contribuía ainda mais para a espiral negativa em que estava.
Ora tinha o nariz a pingar, ora ficava completamente entupida. Tudo isto, além de ajudar nessa espiral, fazia com que eu tentasse evitar contacto com as pessoas que pudessem perceber o que se passava.
Boca seca, tiques nervosos
A certa altura, senti que já era uma pessoa diferente! Irrequieta, nunca estava bem, cheia de paranóias e tiques. Como raio é que, afinal, a cocaína me estava a ajudar a pensar com mais clareza, a comer menos, a conseguir superar o cansaço e a depressão? Não estava! E cada vez mais sentia que o efeito que me dava prazer era por menos tempo.
Afinal de contas, a cocaína estava-me a tornar mais burra, mais cansada, distante de todos, paranóica e ainda mais deprimida!
Todos estes sinais vão surgindo progressivamente. Mas quando dei por eles, já estava muito avançada nesta espiral para sair sozinha.
Quanto mais cedo pedirmos ajuda, melhor. Eu passei por estes sinais e sintomas, mas sei que isto poderia ter progredido ainda mais.
Acabaria ainda mais só, provavelmente na rua, sem qualquer rumo nem ambição.
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Comentários
A escalada (ou descida em espiral, se calhar é mais isso) ficou bem evidente no que escreveste. Reconheci imediatamente o “primo” a quem tinhas coisas para entregar 🙂
Que bom que é poder ver confirmar que paraste a tempo e que recuperaste. Welcome back!
É muito bom estar de volta, sem dúvida! Escrever sobre o processo faz-me ver ainda melhor como valeu a pena tomar uma decisão para mudar de vida e voltar ao meu caminho!
É incrível como, mesmo conhecendo alguns dos sinais e até trabalhando de perto com eles, nunca suspeitei que consumias cocaína… Estranhei a magreza e até te comentei, mas “contentei-me” com as desculpas que deste na altura… Que bom que conseguiste pedir ajuda na altura certa, ou quando reparássemos poderia já ser demasiado tarde… E que este testemunho sirva para que outras pessoas consigam ver a tempo!
Obrigada! Assim como o teu comentário sirva também eventualmente de testemunho. É natural que, apesar de estranhares alguns sinais, não irias saber, nem tinhas forma de saber. É certo que tinha na altura pessoas à minha volta, como tu, que sempre se preocuparam comigo. Mas a questão aqui não é teres-te “contentado” com as minhas desculpas. A questão é que tudo o que eu fazia era para esconder o que realmente se passava comigo.
Daí o momento de pedir ajuda ter sido fundamental. E aí, sim, a minha rede de suporte esteve a dar um apoio que também foi importantíssimo no meu processo.