
E depois da reabilitação? Volto a rir com vontade? Recupero o meu brilho?
Quando tomei a decisão de ir para uma clínica, não sabia bem o que poderia encontrar nem como me afetaria (neste artigo falo sobre as diferentes fases pelas quais passei). Um dos grandes medos que tive foi o de perder o meu brilho, a minha essência, a minha espontaneidade. Para todos os efeitos, eu já não tinha nada disso na altura em que estava a começar essa jornada. Apesar disso, sabia que, por baixo de todas as camadas que fui construindo para me refugiar, essa essência ainda estaria lá.

Tinha dúvidas que, durante o tempo de reabilitação, me esquecesse de quem eu sou. O que me define, o que me move. Iria apenas focar-me no que me faz bem? No que devo fazer? No que me encaminha na direção correta? E já não sabia toda essa teoria?
No final de contas, essas duas perspetivas fundiram-se de uma forma curiosa e fizeram-me ver que, não só não perdi a minha essência, como todo o tratamento me ajudou a tirar-lhe o pó. Afinal, o processo não implicava eu esquecer-me de quem eu sou, muito pelo contrário: o objetivo foi precisamente perceber quem eu sou, o que me move!
Durante grande parte da minha vida me questionei sobre a vida em geral, a questão eterna “porque estamos aqui”, “qual a minha missão”, …
Esta fase que passei na Cleanic ajudou-me a situar-me e a apontar para a direção certa!

Levou o seu tempo, e estas dúvidas não se esclareceram imediatamente. Mas agora olho para trás e penso: sim, levou o seu tempo, mas também a autodestruição a que me submeti para precisar de me internar levou o seu tempo. Não poderia esperar conseguir reconstruir ou desfazer o que precisava num abrir e fechar de olhos.
Saída da clínica
Quando saí da Cleanic, sentia-me bem, equilibrada, saudável. Mas não me senti logo preenchida e feliz. Se formos a ver, eu estava habituada a ver resultados imediatos, com a cocaína. Se me queria sentir bem, num segundo essa droga dava-me esse poder! Mas no instante seguinte deixava-me dois degraus abaixo de onde estava no início.

Por saber disso é que vivi esta fase pós internamento com um entusiasmo diferente. Deu-me confiança perceber que estava num crescendo com alicerces, que desta vez, este bem-estar demorava um pouco mais a chegar ao topo, mas as descidas nunca seriam drásticas como quando me tentava equilibrar com droga.
No entanto, não tinha a certeza se realmente alguma vez voltaria a esse “topo”. Sentir-me bem, completa, feliz, realizada. Fui-me um pouco abaixo inicialmente, sentia-me sempre “morna”, e isso desanimou-me. Retomei a medicação para depressão, para evitar uma espiral negativa. Mas não desisti, estava na reta final deste caminho, não queria morrer na praia!
Na Cleanic aprendi e apliquei coisas simples mas fundamentais como:
- reconhecer comportamentos aditivos
- evitar situações de risco
- a importância das rotinas saudáveis
- conhecer-me e ter consciência de mim e dos outros
- lidar com dificuldades com assertividade
Através de todas estas aprendizagens, pude ir pondo em prática depois de sair da clínica, o que me ajudou a atravessar esta fase com mais confiança e espírito positivo.
Propor-me a sair da minha zona de conforto
Tomar consciência de que alguns desafios me faziam recuar por medo de falhar foi um ponto chave que me ajudou a perceber que esses desafios me beneficiariam sempre de uma forma ou de outra. No entanto, mantendo sempre o equilíbrio entre isso e o meu tempo, o que chamo de “me time”, que também se tornou fundamental para o meu equilíbrio.

Manter contacto com a minha rede de suporte
Família, amigos e também a própria clínica e os profissionais com quem me cruzei, tem sido também um ponto essencial para mim. Cada um tem o seu papel e nenhum se substitui com outro.

Ser mais assertiva ao lidar com dificuldades
Se preciso de marcar uma posição, geralmente assombra-me o medo de ser julgada. Durante o meu tratamento, constatei que o medo não passa disso mesmo: um medo. Mais do que isso, ao ser assertiva, consigo resolver situações que antigamente se arrastavam sem eu perceber porquê.

Manter-me em contacto com o que sinto
Por vezes há situações que nos provocam sentimentos de frustração, inferioridade, medo, solidão, tristeza, impotência. Ter essa consciência ajuda-nos a enfrentar a vida com mais clareza, além de nos dar pistas mais concretas sobre o que podemos ou não fazer em relação a isso.

Alimentar vários focos na minha vida
Ter vários focos na minha vida era um facto que sabia já antes da clínica que era essencial para o meu bem-estar. Mas creio que só a partir daqui comecei a ver isso com a importância devida e de facto a alimentar cada foco, seja o trabalho, convívio social, hobbies, desporto. Não basta ter esses focos, é mesmo necessário alimentá-los.

Todos estes pontos foram-me ajudando a voltar a ser eu “cá fora”. Quando dei por mim… estava feliz, preenchida e realizada, não por uma razão em particular, mas por várias coisas que contribuíam para isso. No dia em que me vi a rir sem controlo, a usar o sentido de humor genuinamente, a estar emocionalmente disponível, vi que sim, é possível voltarmos a estar plenamente bem depois de uma reabilitação. Leva o seu tempo, sim, mas agora olho para trás vejo que foi tempo bem investido, o que me motiva a dar continuidade ao que já construí.
Cada um terá o seu tempo, o seu percurso, voltas e reviravoltas. Este é o meu cenário, mas poderá aproximar-se de outros, quem sabe que ainda estão a meio do seu caminho.
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Comentários
E que bom que é voltar a ver-te sorrir genuinamente!! 😊😘
🥰 Obrigada!
Este texto enche o coração!
É um testemunho na primeira pessoa que mostra o quanto vale a pena lutar.
Partilha-lo com os outros revela muita coragem e grandeza de alma.
Para muitos pode ser uma ajuda preciosa, revelando como é possível recuperar a alegria de viver vencendo medos e fraquezas que poderiam parecer montanhas intransponíveis!
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