
Testemunho Alexandre
Infância marcada pelo álcool e violência doméstica
Olá a todos e a todas…
Desde muito cedo, tive contacto com o álcool e cresci num ambiente marcado pela violência doméstica.
Hoje, com 38 anos, e ao fazer uma retrospectiva da minha vida, percebo que muitos dos caminhos que tomei foram influenciados por essa realidade.
Desde a infância, carreguei dores e medos que muitas vezes não soube enfrentar. Em vez disso, encontrei no álcool e na droga, no meu caso, a ganza, uma forma de escapar, de abafar sentimentos que me consumiam por dentro.
O vício parecia um alívio, uma maneira de anestesiar a dor e a falta de coragem para lidar com aquilo que realmente me magoava.
O início do vício: o primeiro contato com as drogas
Desde muito cedo, as drogas tiveram um impacto na minha vida.
Aos 13 anos, toquei pela primeira vez numa ganza. Naquele momento, não fazia ideia do peso que essa escolha teria no meu futuro.
O que começou como uma simples curiosidade tornou-se uma fuga constante, um refúgio ilusório que, por muitos anos, me afastou de mim mesmo e da possibilidade de uma vida diferente.
A influência do álcool na minha vida
À medida que fui crescendo, o álcool também começou a fazer parte da minha vida, sem que eu me apercebesse que, mais tarde, se tornaria um vício incontrolável.
Cresci com pais alcoólicos e, olhando para trás, percebo que isso teve um impacto enorme no meu futuro. O álcool estava sempre presente, tornando-se algo normal no meu dia a dia, como se fizesse parte de mim sem que eu me questionasse. Além disso, as pessoas com quem me rodeava nas noitadas e nas festas também contribuíram para essa realidade. O consumo era algo banal, incentivado, e eu fui-me afundando cada vez mais sem perceber.
Com o passar dos anos, à medida que envelhecia, o álcool foi-se tornando o meu vício predominante, algo que parecia impossível de largar.

O acidente que quase mudou tudo
Aos 18 anos, a influência das drogas e do álcool levou-me a um dos momentos mais marcantes e perigosos da minha vida. Estava tão drogado, tão “ganzado”, que não parei num sinal de stop.
Um carro acabou por me atropelar e fui projetado com violência.

Quase perdi uma perna nesse acidente. Esse momento poderia ter sido um alerta, um sinal para mudar, mas, na altura, eu não tinha consciência da gravidade do que estava a acontecer comigo.
A progressão do vício e o impacto na minha vida
O vício do álcool e das drogas foi extremamente prejudicial na minha vida, levando-me a vários momentos de destruição e perda.
Foram muitos anos de sofrimento, de decisões erradas, de afastamento das pessoas que me queriam bem.
Mas, aos 34 anos, algo mudou. Foi quando tive uma reviravolta que me fez perceber que precisava de deixar o álcool, que precisava de lutar por mim e por uma vida diferente.
O ponto de viragem:
A morte da minha mãe e a perceção de que eu estava a morrer
Não foi apenas a morte da minha mãe que me fez mudar. Não foram apenas os meus irmãos, que me salvaram naquele dia. Foi, acima de tudo, porque eu estava a morrer. E eu não tinha outra escolha. Ou continuava a ignorar o que ignorei durante mais de 20 anos e aceitava a destruição, ou fazia alguma coisa para me salvar.

E havia ainda outra razão muito forte: o meu filho. Eu tinha, e tenho, um filho a crescer.
Hoje, felizmente, tenho uma super relação com ele, mas naquele tempo eu estava a perder tudo.
Foi preciso chegar ao limite para perceber que não podia continuar assim.
No dia seguinte à morte da minha mãe, quem me salvou a vida foram os meus irmãos.
Foi nesse dia que fui hospitalizado. Depois desse mês no hospital, entrei na mesma comunidade terapêutica onde a minha mãe tinha tentado recuperar. Fiquei lá durante 15 meses, incluindo o período de reinserção social.
A minha relação com o álcool e o medo de ficar sem beber
Hoje, quando sou chamado para dar testemunhos, uso sempre um exemplo para explicar o que era a minha relação com o álcool.

Eu era como a Terra e o álcool era o Sol. A Terra precisa do Sol para sobreviver, certo? E a Terra gira à volta do Sol, dependendo dele.
Eu era exatamente assim com o álcool. O álcool existia, e eu era o planeta Terra, girando à sua volta.
Não podia passar um único dia sem álcool, sem que a minha rotina girasse em torno disso.
E quando não tinha dinheiro para o álcool? A frustração tomava conta de mim.
Era uma angústia imensa, uma ansiedade que me corroía por dentro.
A nova vida:
Da restauração a camionista
Depois de ter estado 15 meses internado na comunidade terapêutica e de ter feito a reinserção social, voltei à minha vida na restauração. Trabalhei durante um ano num restaurante.
Claro que tive vontades de beber, isso é inevitável para quem viveu tanto tempo no vício, mas aprendi a ter estratégias para não voltar a beber.
É importante dizer que um tratamento numa comunidade terapêutica não faz milagres.
O que faz milagres é a decisão que cada um toma para a sua vida.
No meu caso, beber é morrer. Beber álcool é morrer. Dar qualquer passo em direção a qualquer tipo de droga é morrer.
Esta é a minha maior estratégia: saber que, para mim, não há meio-termo. Sei que se voltar a beber, volto ao fundo do poço. À medida que trabalhava na restauração, percebi que queria mais para mim.
Quis mudar de vida, quis ganhar mais dinheiro e ter uma nova oportunidade.
Foi aí que decidi tirar a carta de motorista de pesados.
Hoje em dia, sou camionista. Um camionista em constante evolução, sempre a aprender, sempre a melhorar. Tirei todas as cartas necessárias e estou sempre à procura de mais e melhor, com objetivos bem definidos.
Mas sei que a vida tem altos e baixos. Nem sempre conseguimos concretizar os nossos planos no tempo que gostaríamos. As coisas não acontecem sempre ao ritmo que queremos. Mas isso faz parte da vida, e o importante é continuar.
Conclusão:
Acreditem que é possível
Felizmente, criei bons amigos na comunidade terapêutica.
Hoje em dia, mantenho contacto com eles e com os staffs que me ajudaram a superar esta batalha.
Sempre que posso, volto à comunidade terapêutica para dar testemunhos e para falar com aqueles que estão internados, os novos utentes.

Sou a prova viva de que é possível mudar. Se quem está a ler isto precisar de ajuda, tente imaginar este testemunho como um filme.
Como se fosse sobre vocês ou sobre alguém que vocês conhecem.
Pensem nisso. Imaginem-se nessa situação. Imaginem-se a sair dela. Isso pode ser o primeiro passo para mudar. E, quem sabe, para pedir ajuda.
Não sou mais escravo do vício. Sou livre. E isso dá-me um orgulho enorme.
E é isso que vocês têm de dizer na vossa cabeça: “Eu quero viver.”
Este testemunho foi escrito por Alexandre
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Comentários
Orgulhosa de ti e do teu percurso 🥰
A Pati gosta muito de ti e mais não preciso de dizer 😘❤️
orgulhoso do teu novo caminho deste trabalhinho .mas estas pronto e uma nova pessoa ,abraço.