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Testemunhos reais sobre dependência e saúde mental. Descobre como pedir ajuda, o que esperar da reabilitação e que recuperação é possível.

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Mês: Dezembro 2024

Fim de uma vida normal
  • 3 min

Fim de uma vida normal

“Nunca mais vou ter uma vida normal”

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Um dilema que me passou muito pela mente foi pensar que a minha vida nunca mais seria normal depois de assumir um problema destes.

“Nunca mais vou ter uma vida normal”

E se as pessoas se afastarem de mim? E se as portas se fecharem? Será que vou perder oportunidades? Profissionalmente? Socialmente?

Antes de falar pela primeira vez com alguém a pedir ajuda, hesitei bastante tempo, com estes medos. Tinha medo que esse pedido de ajuda me cortasse com tudo o que eu achava que tinha de “normal” na minha vida. Era certo que as coisas iam mudar, mas não sabia que impacto ía ter.

Posso dizer que, neste momento, já mais de um ano depois de me tratar, considero ter uma vida normal. Tenho mais momentos em que me sinto bem e confiante por ter tomado este caminho do que os momentos em que eventualmente me sinta inferior por estar “marcada” com a minha adição.

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Descrença na mudança
  • 4 min

Descrença na mudança

“Estou rodeada de tanta coisa que me leva para os maus caminhos, como vou mudar uma coisa que parece estar já tão enraizado?”

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Antes de começarmos a nossa mudança, (ou mesmo já a meio deste processo), podemos passar por uma fase de descrença. Cremos que a mudança é necessária para ficarmos bem mas que no nosso caso vai ser muito difícil, senão impossível.

“Estou rodeada de tanta coisa que me leva para os maus caminhos, como vou mudar uma coisa que parece estar já tão enraizado?”

Estes pensamentos podem ser um impeditivo para conseguirmos avançar. De facto, a mudança que sentimos que é necessária é grande e isso pode-se tornar avassalador, ao pensar em tudo o que precisamos de mudar.

O ideal é fazermos um STOP nestes pensamentos que nos empurram para continuar como estamos. A mudança pode ser dura, sim. Mas se for feita com “baby steps”, é possível. Vi vários casos na Cleanic que me fazem dizer isto com fundamento.

Eu própria pensei que haveria coisas muito difíceis de mudar nas minhas rotinas, contexto social, estilo de vida.

Não digo que não sejam preocupações válidas, porque são. Mas termos o foco em objetivos concretos e exequíveis faz com que o processo se torne menos assoberbado.

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Medo da desilusão
  • 5 min

Medo da desilusão

“Não quero desiludir quem me rodeia e me considera uma pessoa forte e feliz”

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O meu grande pavor durante bastante tempo foi pensar na desilusão que eu iria causar se os meus pais alguma vez sonhassem sequer que eu estava a enterrar-me na cocaína! Era um grande ponto fraco meu, que me motivou tentar muitas coisas antes de considerar um internamento (mais detalhes neste artigo). Tinha até medo do que poderia provocar se os meus pais soubessem algum dia, por isso, o meu objetivo principal inicialmente, mais do que me pôr bem, era mesmo esconder aos meus pais que andava num ciclo vicioso, a consumir cocaína, no meio de uma depressão que tentava camuflar e envolvida numa relação totalmente destrutiva e doentia.

“Não quero desiludir quem me rodeia e me considera uma pessoa forte e feliz”

Mas, na realidade, esconder que não estava bem é que era fraqueza da minha parte. A verdade é que os meus pais de facto não faziam ideia da minha envolvência com drogas. Mas também não achavam que eu estivesse bem. Chegaram a pensar que poderia ser bipolar, por notar algumas variações de humor que correspondiam a diferentes fases dos meus consumos.

De qualquer forma, aprendi uma série de coisas ao sentir-me assim e isso me impedir de tomar uma decisão mais assertiva e certeira.

A primeira, é que nunca saberemos que reações vamos provocar, por mais que tentemos antecipar. É claro que os meus pais ficaram tristes e precisaram de processar toda a informação quando souberam. No entanto, falou mais alto o sentido de suporte e apoio para eu me tratar e ficar bem.

A segunda coisa que aprendi foi que toda esta luta foi minha iniciativa mas não a teria conseguido superar sem ajuda dos que me rodeiam. Família, amigos e mesmo pessoas que vim a conhecer ao longo deste caminho.

A terceira coisa que aprendi foi que este medo de desiludir estava intimamente relacionado com a minha incapacidade de me perdoar, a minha falta de empatia até comigo própria.

Todas estas aprendizagens aconteceram sobretudo durante o programa que fiz na Cleanic, onde tive oportunidade de ganhar uma consciência de mim própria que nunca tinha tido.

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Rótulos
  • 3 min

Rótulos

“Serei rotulada de ex toxicodependente?”

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O medo de ser julgada por tudo isto para o resto da minha vida assombrava-me.

“Serei rotulada de ex toxicodependente?”

Infelizmente, ainda existe alguma discriminação neste sentido, mas não tanta como imaginava. A verdade é que muito dessa discriminação pode partir precisamente de nós próprios esperarmos isso dos outros e pôrmo-nos de parte.

Por isso, não depende só disso, mas pode partir um bocadinho de nós próprios como queremos que nos definam.

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Dilemas
  • 3 min

Dilemas

No processo de uma luta contra a dependência podemos ter interferências de vários dilemas. Aqui apresento alguns pelos quais passei.

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São vários os dilemas que podemos encontrar quando nos deparamos numa situação de dependência e auto destruição. Esses mesmos dilemas podem até impedir-nos de seguir o nosso caminho ou tomar as decisões adequadas.

Relato aqui alguns dos meus dilemas que interferiram no meu processo de uma maneira ou de outra.

  • Fim de uma vida normal
    Fim de uma vida normal

    “Nunca mais vou ter uma vida normal”

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  • Descrença na mudança
    Descrença na mudança

    “Estou rodeada de tanta coisa que me leva para os maus caminhos, como vou mudar uma coisa que parece estar já tão enraizado?”

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  • Medo da desilusão
    Medo da desilusão

    “Não quero desiludir quem me rodeia e me considera uma pessoa forte e feliz”

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  • Rótulos
    Rótulos

    “Serei rotulada de ex toxicodependente?”

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#8 Nova vida
  • 2 min

#8 Nova vida

Agosto 2023 ::
Recomecei a minha vida, agora de cabeça erguida e “folha limpa”!

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Por fim, um “final feliz” nesta timeline que foi o meu processo de recuperação!

Não quero com isto dizer que, saindo da comunidade terapêutica, tudo ficou resolvido e bem. Houve também um processo de readaptação, mas agora, munida de ferramentas e de uma consciência muito diferente. Isso mudou radicalmente a forma como lido com adversidades. Porque elas não deixam de existir e é importante também não dar como adquirido o facto de estar limpa e sóbria. O medo da recaída também tem a sua importância e é necessário na dose certa.

Mas a verdade é que, ao longo de todo este processo, percebi que a depressão é um dos meus maiores riscos de recaída.

Aliás, foi também um foco importante na Cleanic, identificar as situações de risco que poderia ter e como as gerir e até prevenir.

Por tudo isto e muito mais digo que o essencial do programa que fiz não foi limpar-me fisicamente das drogas, mas repensar nos meus comportamentos, formas de lidar com determinadas situações e perceber afinal, o porquê de ter recorrido às drogas.

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#7 Internamento
  • 2 min

#7 Internamento

Junho 2022 ::
Entrei na Cleanic para fazer um programa terapêutico inserido numa comunidade.

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Depois de esperar cerca de um mês para entrar na Cleanic, comecei o meu processo de recuperação nesta comunidade. Nunca tinha estado num ambiente assim, nem sabia o que era viver em comunidade. O programa que integra esta clínica é o Portage, baseado em identificar sentimentos, compreender comportamentos aditivos e saber lidar com adversidades de uma forma equilibrada e saudável.

Aqui, conheci diferentes perspetivas, novas abordagens e ferramentas que me permitem hoje estar mais atenta, ser mais assertiva, conhecer-me melhor e, no final, sentir-me melhor. Com o que sou, com o que tenho.

Não foi num dia que conquistei tudo isso, mas cada dia foi um contributo para que no final, conseguisse reunir uma data de aprendizagens, seja pelas situações que vivi na própria comunidade, seja por conhecer realidades que me fizeram abrir horizontes, seja por reavaliar questões da minha vida passada e presente.

Estas aprendizagens foram conseguidas através de uma rotina que é seguida nesta comunidade, com linhas orientadoras para o funcionamento entre os utentes e ferramentas da terapia que usavamos diariamente. A par disso, tinha um acompanhamento psicológico e psiquiátrico.

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#6 Acompanhamento ambulatório
  • 2 min

#6 Acompanhamento ambulatório

Abril 2022 ::
Comecei a ter consultas no CRI com uma psicóloga e uma psiquiatra.

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Nesta fase, já tinha feito um pedido de ajuda, mas não tinha a noção que não me ía bastar isso. O pedido de ajuda foi fundamental, mas era isso mesmo: uma ajuda. Ninguém ía fazer o trabalho por mim. Se queria mudar, eu tinha de fazer por isso. Contar com a ajuda de quem me rodeia, sim, mas a mudança tem de partir de mim.

Tive algumas consultas com uma psicóloga e outras com uma psiquiatra, tudo através do CRI. Estavam-me a ajudar a manter a noção do que estava a fazer, mas ao fim de algum tempo, com a ajuda das pessoas que me estavam a ajudar, percebi que ía ter de ser mais radical com a mudança que queria.

Para mim era o pânico pensar em alguma coisa que fizesse com que tivesse de assumir mais “publicamente” o meu problema. Sobretudo pelo que achava que ía provocar aos meus pais (ver mais aqui).

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#5 Quebra de rotina
  • 2 min

#5 Quebra de rotina

2022 ::
Na tentativa de quebrar as minhas rotinas de consumos, mudei tudo em casa, passei temporadas fora, fiquei em casa de amigos.

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Houve também uma segunda tentativa além do Caminho para Santiago, para uma rotura com a minha rotina. Passou por mudar toda a mobília de minha casa, de maneira a retirar associações os meus consumos (uma vez que era em casa que consumia sobretudo) e sair de casa uns tempos. Fui passar uns tempos numa casa longe da minha, longe de tudo, para parar de consumir. Cheguei também a ficar em casa de amigos com quem já tinha falado sobre isto e que estavam dispostos a ajudar-me.

Nesta fase já tinha uma consciência da minha situação, mas as coisas não estavam propriamente a melhorar. A minha cabeça estava sempre a pensar quando iria consumir a próxima vez, sentia-me numa prisão, num ciclo.

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#4 Ajuda profissional
  • 2 min

#4 Ajuda profissional

Dezembro 2021 ::
A primeira coisa que quis fazer para me tratar foi tentar estabilizar emocionalmente e tratar a minha depressão.

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Ainda levou um ou dois meses até que eu realmente fizesse alguma coisa. Depois de uma tentativa de uma consulta com a médica de família que acabou por não acontecer, consegui uma consulta com um psiquiatra. No meu caso em particular, sabia que estava a camuflar uma depressão, portanto decidi marcar esta consulta para começar alguma medicação que me ajudasse, independentemente dos consumos de cocaína. Sentia que, no momento em que começasse a sentir-me sóbria, ía ser assombrada por um estado que não queria nem sabia como lidar.

No entanto, ora tinha rasgos de sobriedade que me faziam querer pôr-me bem, ora caía na tentação de ir consumir mais para me sentir bem, supostamente. Cada vez que via dinheiro na conta, gastava. Por isso, num desses rasgos, embora já depois de consumir mas já naquela fase de “não posso continuar assim”, passei dinheiro para uma amiga para que me guardasse para essa consulta. Uma das desculpas que podia arranjar para não ir na altura seria não ter dinheiro, e assim assegurava isso.

Independentemente de começar a medicação para a depressão, os consumos continuavam. Agora, fazendo misturas com regras, cocaína e medicação.

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