pedir ajuda para sair das drogas

Como pedir ajuda para sair das drogas: o primeiro passo para mudar de vida

Há alturas em que sabemos que precisamos de ajuda mas não sabemos a quem ou onde recorrer. Por ter sido um dos meus dilemas, se houve coisa que fiz até à exaustão, foi vasculhar na internet tudo o que me pudesse ajudar sem ter de dar a cara a ninguém. Queria a todo o custo resolver a situação sem que as pessoas à minha volta sofressem a desilusão de perceber a situação em que eu estava.

Nem sempre estamos preparados para pedir ajuda a um amigo, familiar ou mesmo um profissional. E muitas vezes nem sabemos que estamos já nesse ponto, achamos que “não está assim tão mau”.

A questão é: qual é o pico negativo que temos de bater para ver que “está mesmo assim tão mau”? Será que existe esse ponto? O limite desse ponto é morte, solidão, rua, prisão, prostituição, miséria. O fim já todos conhecemos e é mesmo sempre assim.

No meu percurso e de todos os casos que assisti, não conheci nenhum caso em que passou de “estou a consumir muito mas está tudo controlado” para “controlei sem qualquer ajuda e agora estou bem”.

Seja como for, cada caso será sempre um caso. Não sou a favor de generalizar tudo. Mas tenho a noção que estas fases e situações vão sendo mais ou menos constantes. Na clínica onde estive, acabei por ter a oportunidade de aprender não só com a minha história, mas também com a dos outros. Seja como exemplo, seja como não-exemplo.

Reconhecer que há um problema: o primeiro passo

O tipo de ajuda que a pessoa precisa pode sempre variar, mas o que se diz de “o primeiro passo é admitir que temos um problema” é inegável. Não temos de o admitir publicamente ou a quem nos confronta. O fundamental é admiti-lo a nós próprios e sermos honestos connosco próprios. Que sinais estou a ver em mim que me mostram que algo não está bem? Tenho a necessidade de mentir ou omitir coisas perante os outros para que não achem que estou com um problema? Que rotinas tenho tido que não me estão a fazer bem neste momento?

Primeiro passo do caminho para sair das drogas
Image by Abby Haukongo from Pixabay

Podemos não saber ao certo o que está mal, nem porque é que estamos mal. Muitas vezes nem conseguimos ver como é que viemos dar onde estamos. Mas parar para perceber que alguma coisa está mal é fundamental. E logo a seguir vem o segundo passo: a decisão da necessidade da mudança. Se alguma coisa está mal, é preciso mudar alguma coisa.

Falar com alguém: amigos, linhas de apoio e grupos de ajuda

Seja um amigo que não nos julga pelo que fizemos mas vê que precisamos de ajuda, seja um perfeito desconhecido mas que se identifica com a situação, falar com alguém é sempre um passo importante.

Hoje em dia existem opções que passam precisamente por podermos falar abertamente sobre o que estamos a passar sem nos sentirmos julgados. Eu própria fiz isso em vários contextos. Não foi uma conversa em particular que me ajudou nem uma mão, mas todos esses bocadinhos foram construindo o meu caminho para a mudança.

Falar com alguém: amigos, linhas de apoio e grupos de ajuda
Image by David from Pixabay

Falei com amigos que me ajudaram, mas também recorri a uma linha de apoio (1414 – Linha Vida SOS Droga) onde me senti muito apoiada. Fui a reuniões dos NA, online e presenciais e falei com pessoas que passaram por situações semelhantes.

Assim como o mundo da droga se abre quando entramos nele, surpreendentemente também se pode abrir um mundo novo, positivo e para a mudança que precisamos, quando começamos a querer isso para nós. Além de querer passar o meu testemunho, também importa dizer que o intuito deste site é precisamente fazer uma ponte para quem sente que precisa de dar este passo para a mudança e não sabe como. Não tenho qualquer outro interesse a não ser esse mesmo. E por isso, estou disponível também para isso, através dos emails mail@sosnovamente.com ou sosnovamente@gmail.com ou através do formulário de contacto. O anonimato será sempre assegurado.

Consulta no CRI: o que esperar do primeiro contacto

O meu processo teve solavancos, acho que isso faz parte. Mas o importante é não desistir nem perder esperança de que conseguimos ficar bem. Uma das coisas que também fiz foi marcar uma consulta no CRI (Centro de Resposta Integrada). Fiquei positivamente surpreendida com a resposta rápida, o agendamento breve de uma consulta e toda a equipa com que me deparei logo desde o primeiro contacto. Tive acesso a uma enfermeira, uma psicóloga, uma psiquiatra e uma assistente social. Tudo através do Sistema Nacional de Saúde, sem pagar nada. Cheguei a marcar a primeira consulta e perder a coragem de ir, mas depois voltei a marcar e não me arrependi, bem pelo contrário. Encontrei excelentes profissionais, prestáveis e com vontade de me ajudar na minha mudança.

Consulta no CRI: o que esperar do primeiro contacto
Image by Bruno from Pixabay

Comunidade terapêutica: superar o medo do internamento

Até decidir ir para a Cleanic, tinha pavor só do termo “internamento” e do que isso poderia implicar. Mas, quando vi que poderia ser uma via para eu ficar bem, comecei a relativizar esses medos. O verdadeiro grande medo era o que seria de mim se continuasse com o estilo de vida que estava a ter.

Há vários tipos de tratamentos, não apenas o internamento. Também existe o tratamento ambulatório em que a pessoa vai regularmente à clínica. Este tipo de tratamento em comunidade terapêutica não é apenas para a pessoa se libertar das substâncias e ficar bem fisicamente. O principal objetivo é até resolver a questão pela raíz: perceber o que a leva a esses comportamentos aditivos e ganhar ferramentas para ultrapassar isso. É uma possibilidade de, não só sairmos bem, como ser possível termos uma vida positiva e saber lidar com as dificuldades de formas adequadas e eficazes.

Comunidade terapêutica: superar o medo do internamento
Image by Hans from Pixabay
Coragem: pedir ajuda é um ato de amor-próprio

Para pedir ajuda é sempre preciso coragem. Assumir que não estamos bem, que erramos, que estamos perdidos, é sempre um passo difícil naturalmente. Mas podemos sempre mudar um pouco esta perspetiva e pensar que este pedido de ajuda, seja a alguém que nos conhece e se preocupa connosco, seja a um desconhecido que saiba dar-nos algum tipo de apoio ou orientação, é um ato de respeito por nós próprios. Por tomarmos uma decisão de nos fazermos bem, de nos cuidar, de voltar a ganhar um propósito na vida. Ninguém nos pode ajudar se nós não estivermos abertos a essa ajuda. E esse ato de coragem de pedir ajuda será o início de um respirar fundo, de um recomeço. E nunca é tarde para isso. Não falo apenas por mim, mas por casos que também acompanhei e vi e ainda hoje mantenho contacto e sinto orgulho por eles.

Toda a energia que o ser humano tem para se fazer mal e se auto destruir a si próprio pode ser canalizada para um caminho positivo e com uma força ainda maior.

Gostaste deste artigo? Partilha, ajuda a que esta mensagem chegue a quem precise.

Envia um comentário através do formulário. Se queres partilhar o teu testemunho, entra em contacto através do formulário de contacto.

Queres receber as novidades do site? Subscreve aqui.

A processar…
Successo! Estás na mailing list da SOS Nova Mente

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

#8 Nova vida

2024-12-03

Dilemas

2024-12-06